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sábado, 22 de outubro de 2011

Desgosto nas alturas...

Antes de fazer uma viagem de instrução à Luanda, meu amigo de trabalho Roque me enviou um e-mail com fotos bem exóticas.... Fui pesquisar sobre este assunto e reproduzirei a reportagem realizada pelo jornal "SA" da Angola. Esta reportagem é bem curiosa e é um verdadeiro "desgosto nas alturas"...

Luanda - As Organizações Santos Bikuku (OSB) desistiram de utilizar um avião cargueiro que estava projetado para efetuar a excursão turístico desportiva à Guiné-Bissau, em apoio à seleção nacional de futebol angolana, que naquele país africano disputou, a última partida do seu grupo de qualificação ao CAN de 2012.

Fonte: SA
A não utilização da referida aeronave, um IL-60, de fabricação russa, foi confirmada ao Semanário Angolense, pelo «patrão» dessa organização empresarial, Santos Bikuku, que entretanto, não avançou as razões que estiveram na base de tal desistência.

Segundo o empresário, a sua organização recorreu para o efeito ao fretamento de uma aeronave do tipo Boeing 737, da companhia aérea angolana Sonair, que iria levar os excursionistas à capital bissau-guineense.

Embora Santos Bikuku não tenha evocado as razões para o recuo em relação à sua «cangalha», crê-se que tal fato ter-se-á ficado a dever a uma certa pressão exercida por alguns órgãos de imprensa, entre eles o Semanário Angolense, depois do referido cargueiro ter sido usado numa digressão ao Madagáscar, por ocasião do Campeonato Africano de Basquetebol (em seniores masculinos), que decorreu no último mês de Agosto naquele país do Índico.

Soube-se, entretanto, que o polémico aparelho tem sido usado no transporte de viaturas a partir da província angolana do Cunene. A não utilização do aparelho em causa foi, aliás, em parte confirmada por um dos responsáveis do Instituto Nacional de Aviação Civil (INAVIC) que afirmou que a sua empresa não havia recebido nenhum pedido de vôo das OBS para a digressão a Bissau.

«O INAVIC não recepcionou ainda nenhum pedido de vôo a ser realizado pelo referido avião», revelou ao Semanário Angolense o diretor-geral adjunto desse órgão de inspeção e fiscalização da aviação civil, Celso Rosas.

Em relação à viagem efectuada pela mesma aeronave a Antananarivo, em Agosto, desdramatizou o assunto, afirmando que o avião «reunia as condições de navegabilidade aceitáveis para efetuar o vôo em causa».

UTILIZAÇÃO INDEVIDA DE CABEÇOTES DA TAAG

O SA soube de uma fonte da TAAG que a companhia aérea de bandeira já apresentou um protesto junto ao INAVIC pelo fato das OSB terem feito uso do símbolo da Palanca Negra no voo que levou os excursionistas ao Madagáscar.

«Já apresentamos um protesto junto do INAVIC pelo uso indevido do símbolo da nossa companhia num dos aviões das OSB», deu a conhecer, o administrador da TAAG para as Operações, Rui Carreira. «Esperamos que o mesmo cenário não se volte a repetir», recomendou.

Sobre o assunto, o empresário Santos Bikuku disse que já apresentou um pedido de desculpas à TAAG e que não voltará a fazer uso das referidas cabeceiras.

Questionado sobre o mesmo assunto, Celso Rosas confirmou ter recebido um pedido de desculpas de Santos Bikuku e que, segundo ele, o caso «está ultrapassado».

Na semana passada, o «patrão» das OSB revelou que tinha «herdado» as aludidas cabeceiras de um avião do tipo DC-9, que ele havia comprado, por empresa interposta, à Air Gemini. «Esse aparelho tinha sido antes alugado pela TAAG, que lá deixou os seus símbolos nos assentos», explicara então.

A polémica à volta do avião cargueiro, tido como um «caixão voador», não foi marcada apenas pela realização da excursão ao Madagáscar, mas também pela sua aquisição, já que ele foi comprado ao Grupo Valentim Amões, num processo alegadamente ferido de legalidade.

A reportagem é do site Club K.net e as fotos são do site famastar, todos da Angola.




















A aeronave é parecida com este modelo da foto abaixo.



quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Alitália traz a experiência "Made in Italy" em seus serviços a bordo.




Após ter sido realizada uma sequência de reestruturação financeira após ter decretado a sua falência em 2008, a Alitalia deu uma incrementada e atualizou a sua experiência em vôo no ano passado. A transportadora de bandeira da Itália realizou um verdadeiro "Made in Italy" para o desenvolvimento de seus novos serviços, em parceria com as mais famosas marcas de luxo italianos, como no oferecimento de amenidades, além de oferecer a autêntica cozinha regional italiana a bordo.



Através de um dos ícones de estilo e considerado "globetrotter" Tyler Brûlé, há vários anos atrás havia sugerido à empresa: "Alitalia pode muito bem ser a transportadora que tem mais potencial para reinventar-se como uma séria marca de luxo como tem todas as matérias-primas italianas. Como a experiência em voo se torna cada vez mais homogeneizado e mais companhias aéreas começam a ter esse comportamento, os novos proprietários da Alitalia poderiam aplicar esse conceito para colocar a sua companhia aérea nacional de volta em vôo."

Boeing 777 que são utilizados nas rotas à São Paulo-Brasil.


Marcas italianas Com a chegada de duas aeronaves A330 novos, em julho de 2010, a Alitalia introduziu camas "full-flat" na classe executiva, uma nova cabine de "Premium Economy", e começou um programa de atualização para seus Boeing 777. Além disso, a companhia completou um programa de renovação de 20 milhões de Euros para as suas aeronaves de curtas e médias rotas, como as aeronaves Airbus, equipando-os com os assentos de couro fino e telas de LCD individuais.

Classe Business da Alitália, a Magnífica.


Para seu conforto em voos de longo curso, na Business Class, a Alitalia se uniu com uma das mais longas marcas de luxo italiana, a Ginori, que desde de 1735, fabrica louças, talheres e copos e a Frette, que desde 1860 fabrica panos de linho para mesas, cobertores e fronhas, enquanto os clientes da empresa também recebem um kit de amenidades da marca Bulgari. Os cobertores e travesseiros da marca Frette também estão disponíveis na classe Premium Economy e na cabine da classe Econômica da Alitália, e o kit de amenidades para os clientes da classe Premium Economy é fornecido pela marca italiana de cosméticos Culti.

Prioridades para a classe Magnífica no embarque nos aeroportos.

Conforme o diretor de atenção ao cliente da Alitalia, Aureliano Cicala, comentou que a empresa realizou investimentos nos assentos, materiais, na qualidade dos alimentos e bebidas e serviços dos salões, a maioria em cooperação com as famosas marcas italianas como Ginori, Frette e Bulgari, onde a Alitália visa promover o "made in Italy".




Ítens de conforto da marca Frette.

Ítens de amenidades da Culti que são oferecidos aos clientes.

Telas de LCD para a classe magnífica da Alitália.



Sabores originais da Itália


Seguindo uma dica da empresa suiça, a SWISS, "Taste of Switzerland", e utilizando apenas ingredientes locais, a Alitalia está oferecendo aos seus clientes, especialidades italianas sazonais e regionais para a Business Class, combinados com vinhos locais, água mineral San Benedetto, e fibalizando com um café expresso fresco. Os cardápios variam a cada três meses, com voos da ida oferecendo alimentos de uma determinada região e os vôos de retorno, oferecendo pratos locais de uma outra região. Por exemplo, os clientes da classe Business da Alitalia, são oferecidos atualmente a cozinha tradicional das regiões italianas da Lombardia e Umbria, com pratos como "alla norcina" e lentilhas de Castelluccio, ravioli de gorgonzola com molho de pêra e uma "Pizzoccheri valtellinesi" ( que é um prato de massa vegetariano). São oferecidos pratos também das regiões italianas que incluem a Toscana, Veneto, Abruzzi, Lazio, e Sicília.

Exemplo do cardápio "Taste of Switzerland" da Swiss.


Reforçando ainda mais que o "Made in Italy" está a bordo, é vista através da carta de vinhos que contêm um mapara regional em seu interior com informações dos vinhos em oferta, enquanto um vídeo sobre as refeições da região e seus vinhos são mostrados no sistema de entretenimento a bordo. Para aqueles clientes que querem recriar a sua refeição de bordo em casa, o cardápio possuí um cartão que inclui uma receita de um dos pratos que foram servidos.

Cartões de receitas são oferecidos aos clientes caso queiram reproduzir o prato em casa.

Comissária da Alitália oferta refeição ao seu cliente.

O serviço de catering da Altialia é oferecido em cooperação com a Buonitalia, uma instituição governamental que promove a comida italiana e vinhos, e a AICIG, que é a associação que supervisiona as designações de origem italianas protegidas e das suas indicações geográficas. Os vinhos locais foram selecionadas pela Sommelier Association, da Itália, que também treinou os assistentes de vôo da Alitalia sobre os conceitos básicos de vinho.

Mapas de vinhos da Toscana que são oferecidos pela Alitália.

Memória: Antigo anúncio da Alitália, mostrando a classe executiva, nos anos 70, no Jumbo 747-100.



Fontes:

Alitália Linhas Aéreas - www.alitalia.com

"Alitalia seeks bankruptcy measure" -  http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/7588475.stm  

"Tyler Brûlé with advice for Alitalia: Look to luxury" -


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Madrid tem restaurante mais antigo do mundo!



Em 1725, um casarão madrilenho abria suas portas e seu forno a lenha para que cortesãos e viajantes famintos assassem os pedaços de cordeiro ou javali que levavam em suas bagagens.

Três séculos depois, a casa e o forno continuam no mesmo lugar como um templo de gastronomia. A Casa Botín, o restaurante mais antigo do mundo, segundo o Guinness World Records, tem uma história tão interessante como seus pratos.

"Naquela época, não se podia servir comida porque açougueiros e comerciantes se opunham. Havia pensões onde se oferecia o serviço de forno. Os hóspedes traziam o que iam comer", disse à televisão inglesa BBC Carlos González, um dos herdeiros do restaurante.

Carlos González, um dos herdeiros do Casa Botín, o restaurante mais antigo do mundo, segundo o Guinness World Records


Por trás da fachada de ladrilhos se abre um labirinto de pequenas salas, onde certa vez diplomatas americanos e soviéticos dividiram um leitão em plena Guerra Fria. Os atores Marcelo Mastroiani e Catherine Deneuve também jantaram e brindaram no local alguns anos antes de se separarem.

González mostra um canto decorado por uma pintura exibindo a Madri medieval.

"Esta era a mesa preferida de Hemingway. Ele gostava de sentar de costas. Aqui, ocorre a cena final de seu primeiro romance,O Sol Nasce Sempre (Fiesta)", conta ele.

"Meu avô, que conversava muito com ele, tentou ensiná-lo a preparar uma paelha, mas eles chegaram à conclusão de que era melhor que ele seguisse com a literatura e meu avô, com as paelhas."


Bombardeios

Ainda não havia estourado a Guerra Civil espanhola e a rua central dos Cuchilleros, onde fica a casa de quatro andares, era cheia de cantinas e amoladres de facas, que deram o nome à rua.


Casa Botín em 1752.



Por toda parte havia adegas e caves centenárias que serviram de abrigo quando os bombardeios começaram.

"O restaurante não fechou, seguiu servindo comida", conta González.

Algumas das cavernas subterrâneas no local datam de 1580, muito antes de haver ali a casa.

"Sabemos que funcionava como taverna, mas não sabemos o nome. No começo do século 18 chegou a Madrid Jean Botín, um cozinheiro francês que decidiu montar uma pensão com forno no local", explica Arturo González, irmão de Carlos.

"As construções de mais de dois andares tinham que hospedar os cortesãos que chegavam a Madrid. Botín pagou por uma isenção e assim pode se dedicar exclusivamente à gastronomia", diz Carlos González.


Celebridades

A palavra restaurante só surgiria anos depois, na França, associada a lugares luxuosos e elitistas.

"Não entramos na discussão sobre se há outro restaurante mais antigo. Cumprimos as condições exigidas pelo Guinness World Records: o mesmo nome e o mesmo uso."

Os irmãos González fazem parte da quarta geração de proprietários. Seus avós, de Valência, chegaram à casa em 1930.

Desde então, as mesas da Casa Botín já viram passar todo tipo de celebridade: Jacqueline Kennedy, Charlton Heston, Ava Gardner, Michael Douglas, Pedro Almodóvar, os reis espanhóis e até Ricky Martin.

Muitos deles provaram as especialidades do restaurante: leitão e cordeiro assados.

"Eles são assados lentamente no forno à lenha, que é a alma do restaurante", conta Carlos González, de pé ao lado do mesmo forno onde Jean Botín assava as carnes na Madrid do século 18.

"É um prato típico da região de Segóvia. Em um dia vendemos entre 40 e 50 leitões e entre 15 e 20 cordeiros."

E o Botín não teve apenas clientes famosos, mas funcionários também. Segundo o Guinness, Francisco de Goya trabalhou ali lavando pratos antes de se tornar um pintor renomado.

Balcão de entrada do restaurante Casa Botín.


A casa também tem as marcas de momentos importantes na história da Espanha. Mostrando um cano entortado na fachada, Carlos González conta que aquilo foi resultado da Guerra Civil.

"Deixamos assim para lembrarmos. Uma bomba caiu na casa ao lado e a destruiu por completo. Por pouco, não estaríamos mais aqui."


Bibliografia:

Reportagem publicada no UOL em 30/08/2011 e as fotos são da BBC e da Casa Botín.

sábado, 13 de agosto de 2011

EDITORIAL DE ANIVERSÁRIO DO BLOG: AGRADECIMENTOS.



Mês de agosto de 2011. Cumprimos 1 ano de excelência em serviços. São 16 anos de experiência no mundo da aviação, da hotelaria, do turismo e da gastronomia. E espero que tripliquem ainda mais, pois ainda me falta mais conhecimentos para transmitir a todos os leitores, já passados às 8 mil visitas neste período. Foram (e continuam) as dificuldades... O trabalho árduo, os estudos cada vez mais complexos: sei que superarei como superei as dificuldades de antes: o curso técnico, a primeira faculdade, a segunda faculdade, a pós-graduação junto com a segunda faculdade, o meu pai querido com câncer e seu posterior falecimento, a terceira faculdade com este último ano de Master... Isto que lhes mostro é uma lição de vida, pois quem sempre almeja algo, sempre alcança...

Este blog veio para ficar... Veio para mostrar outros conhecimentos que todos querem saber... Veio para quem for ler, ter momentos de sonhos, de prazer... Às vezes, peço nas postagens, mil desculpas por não postar conforme as normas da ABNT, pois o próprio programa não me permite (o que eu não deve sair em negrito sai, em arial sai em times, etc e tal)... Mas principlamente, este blog veio para muitos aprenderem o que é o bom-atendimento, o que é ser bom empresário, bom funcionário, bom cliente... Se antigamente era possível sem a tecnologia de hoje, por que isto não está ocorrendo atualmente? Vejo uma grande decadência em todos os serviços prestados... Atendimentos desde um supermercado, uma padaria, um aeroporto, até na (que eu acho o final dos tempos) péssima educação e no péssimo sistema de saúde pública que este país vive.



Temos excelentes referências na educação que cito neste, o saudoso Paulo Freire, na saúde, Oswaldo Cruz ou Emílio Ribas entre outros e, outros mestres que o Brasil teve a felicidade de conhecer! 

Sem ir muito adiante, quero agradecer meus queridos amigos que visitam quase que diariamente, meu blog: Luis Cláudio e Viviane Garcia, Marcelo Nannini, Fabiana Moraes, Kátia Cibele,  Enf. Kátia S. Cruz, Tati (Bertaliolli e Penninck), Adriana "Fofão" Almeida, Teresinha Rolim, Sabrina Gonçalves, Esmeralda Ribeiro. Agradeço também ao querido amigo Willian Miguel e à minha querida mestre cuca, chef Dulce Cristina (cada vez mais arrasando em seus programas de gastronomia). E beijos muito carinhosos às minhas amigas Luciana Sanchez (deveria ganhar o prêmio de excelência em docência) e a Gabriela (exemplo em inteligência, rumo ao seu doutorado)! Desculpe-me se deixo de mencionar alguém... Agradeço ainda mais a todos que colaboram e prestigiam o blog "gosto nas alturas". Porém quero agradecer especialmente ao meu pai que está nos céus olhando por nós, Francisco Blanco, minha querida mãe Carmen, meus irmãos Alberto e Patrícia.

Quero deixar meus parabéns ao Sr. Carlos Spagat (da revista Flap Internacional) e à Gianfranco Betting que, mantêm viva, a história da aviação comercial mundial.

Abraços bem carinhosos a todos os docentes, desde o infantil até o pós doutorado de todo o nosso País que devem ser, custe o que custar, reconhecidos pelo esforço em tornar cidadãos mais responsáveis e formadores críticos de opinião!

Obrigado à todos e até a próxima postagem!!!!

Luis Blanco


Crédito das fotos: Airliners.net

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Seis décadas de aviação inglesa no Brasil e a história da British Caledonian.

Vamos continuar publicando em nosso blog, reportagens históricas da Revista Flap, de Carlos Spagat, uma referência essencial sobre histórico das empresas aéreas do Brasil e do exterior que representaram excelência em serviços. Nesta postagem vamos publicar uma reportagem de autoria de Gianfranco Betting, também uma referência na reportagem de aviação sobre a empresa aérea britânica, BRITISH CALEDONIAN. Esta empresa voou por muitos anos no Aeroporto de Viracopos/Campinas e no Galeão/Rio de Janeiro. Vale a pena conhecer a empresa que antecedeu a nossa conhecida British airways que voa com elegância britânica até os dias atuais...



" pouco mais de 60 anos começaram as ligações regulares entre Brasil e Reino Unido. O embarque é imediato na história desta saudosa empresa britânica e de suas antecessoras nos serviços para o Brasil.A revista Flap Internacional presta uma justahomenagem à British Caledonian." Por Gianfranco Beting.



BSAA - a pioneira

Sexta-feira, 15 de março de 1946, meio- dia. Uma manhã fria e úmida, típica do final de inverno britânico na pista de grama da antiga Base Aérea da Royal Air Force – Croydon. Lar dos Spitfire e Hurricane do Comando de Caça da RAF durante a recém - terminada Segunda  Guerra Mundial, Croydon fervia de atividade. Os últimos preparativos para uma fascinante jornada foram concluí- dos. Fecharam-se as portas de um bombardeiro Avro Lancaster, convertido para uso civil e conhecido como Lancastrian. A bordo, cinco tripulantes e 13 passageiros. Matriculada G-AGWG e batizada Star Light, a aeronave abriria uma nova rota e uma nova companhia aérea: seria o primeiro vôo regular da British South American Airways - BSAA.


Este é o Avro York, utilizado junto com os Lancastrian nos serviços transatlânticos da BSAA.

Três horas e meia depois de partir, o Lancastrian pousava em Lisboa, primeira escala da viagem inaugural entre Reino Unido e Brasil. A seguir, mais oito horas de vôo até Bathurst (hoje Banjul, Gâmbia), última escala antes de enfrentar as nove horas de vôo sobre o Atlântico em direção a Natal, primeira escala em solo brasileiro. De Natal ao Rio, foram mais seis horas de vôo, pousando no Aeroporto do Galeão por volta das 17h00, aproximadamente 38 horas após a partida de Londres. Depois, a aeronave prosseguiu para Montevidéu e Buenos Aires, antes de iniciar o longo regresso até Londres. No vôo de volta, porém, a escala em Madri substituiu o pouso em Lisboa. Meses depois de inaugurada, em 23 de setembro de 1946 a escala em Bathurst foi substituída por Dacar, no Senegal.


A bordo dos Lancastrian da BSAA: muito barulho, pouco conforto.
Esse vôo histórico havia sido precedido, no primeiro dia de 1946, por um o de provas, que havia decolado do Aeródromo de Heathrow com destino Buenos Aires e escalas em Lisboa, Natal, Rio de Janeiro e Montevidéu. Mas o o de 15 de março de 1946 teria tanta importância histórica quanto o pioneiro de de janeiro: foi esta a primeira ligação regular entre Brasil e Inglaterra. O o foi um sucesso, embora fosse extremamente cansa- tivo. Os Lancastrian, como bombardeiros adaptados, deixavam a desejar em termos de conforto. Os níveis de ruído eram intensos dentro da cabine. E, por o ser pressurizado, tinha de voar baixo, em meio às nuvens, chacoalhando bastante. Para completar, o padrão de revestimento térmico deixava a  desejar: a aeronave virava um forno quando em solo no Brasil ou na África e uma geladeira quando em altitude sobre os Andes ou sobre a Inglaterra. De qualquer modo, o caminho aéreo entre Reino Unido e Brasil estava aberto.

Logo depois da inauguração da rota, deu-se a primeira mudança de cunho político no mercado britânico, o que traria grandes mudanças nas operações entre Inglaterra e Brasil nas décadas seguintes. Em de agosto de 1946, todas as companhias aéreas britânicas foram nacionalizadas e a BSAA adotou a designação oficial de British South American Airways Corporation - BSAAC.

Ao final daquele ano, a BSAAC possuía seis  Avro Lancastrian e 16 Avro York. A frota de Lancastrian também foi aumentada em quatro unidades já em 1947. A frota seria ainda maior se a empresa não tivesse sofrido uma série de acidentes fatais. Sem aviões para cumprir os serviços, a BSAAC acabou sendo fusionada à malha da British Overseas Airways Corporation - BOAC, em 30 de julho de 1949. Em pouco mais de três anos, a pioneira empresa aérea britânica no Atlântico Sul operou um total de 36 aeronaves diferentes, perdendo nada menos que dez em acidentes fatais. Um triste recorde.


Anúncio da BSAA nos anos 1940 mostra o itinerário e o Lancastrian como aeronave principal na rota.

BOAC - herdeira do legado

Inicialmente, BSAAC e BOAC operaram em paralelo, com aeronaves nas próprias cores e tripulações com distintos uniformes. Ao final de 1949, o o entre a Inglaterra e o Brasil passou a usar o código IATA de duas letras da BOAC (BA). O serviço era o BA103, que partia de Londres às sextas-feiras às 10h05 com escalas em Lisboa, Dacar e Natal, até pousar no Rio de Janeiro às 15h25 dos sábados. A aeronave parava então para descanso da tripulação. Às 8h00 dos domingos, o o 103 prosseguia para o Paulo (Congonhas) e de para Montevidéu e Buenos Aires, onde finalmente pousava as 18h35. Em 16 de março de 1950, a BOAC mudou o equipamento usado nos vôos para o Brasil. Entraram em serviço os Canadair Argonaut, que na verdade eram Douglas DC- 4 construídos sob licença no Canadá e equipados com motores Rolls Royce Merlin. Com 40 assentos, passaram a servir a América do Sul três vezes por semana.

As linhas clássicas do Lancaster, em sua versão de transporte de passgeiros: o Avro Lancastian.

Os vôos mudaram de mero e passaram a ser operados como BA351(rumo sul) e BA352 (rumo norte). Os planos da BOAC para as rotas do Atlântico Sul eram ainda mais ambiciosos. A empresa planejava colocar nas rotas, já em meados de 1953, o primeiro jato comercial  em operação, o de Havilland Comet. Um vôo de provas foi realizado em 13 de setembro de 1953, nas asas de um Comet 1 (prefixo G-ALYT), que decolou de Londres às 17h29 e fez escalas em Lisboa, Dacar e Recife antes de chegar ao Rio às 11h35 do dia 14 de setembro, completando a jornada em 21 horas e 6 minutos. Antes de pousar no Galeão, o Comet fez uma série de vôos rasantes sobre a Cidade Maravilhosa.  Recebido por uma imensa multidão, o G-ALYT foi o primeiro jato comercial a pousar no Brasil. Sua entrada em serviço cortaria o tempo de o na rota pela metade.

Detalhe do espartano interior de um Lancastrian.

No entanto, uma série de desastres com os Comet 1, entre 1953 e 1954, significou o cancelamento desses planos. Sem aeronaves para servir todas as suas rotas intercontinentais, a BOAC decidiu suspender os serviços para a América do Sul em abril de 1954. Até porque a companhia não vinha obtendo bons retornos financeiros nessas rotas. A BOAC só voltaria ao Brasil no dia 26 de janeiro de 1960, mas o fez em grande estilo. Nessa data, o Comet 4 de prefixo G-APDO reinaugurou o serviço entre Londres e Santiago do Chile, com escalas em Madri, Dacar, Rio, Montevidéu e Buenos Aires. Os Comet 4 levavam apenas 69 passageiros, sendo que 24 eram acomodados na primeira classe e os restantes 45 lugares eram reservados aos passageiros da classe turística. Voando a Mach 0,73 (893 quilômetros/ hora), a jornada completa, da Inglaterra ao Chile, levava mais de 40 horas, sendo 26 horas de vôo. Com a inauguração do Aeroporto de Viracopos em Campinas, Estado de São Paulo, os vôos da BOAC passaram a fazer escalas em VCP ao invés de Congonhas.

BUA - VC10 na rota austral

A BOAC não voaria por muito tempo para Campinas. O governo britânico decidiu realinhar mais uma vez sua política de divisão de mercados de longo curso. Foi acertado que a BOAC cederia as rotas sul-americanas, onde amargava prejuízos, para outra empresa aérea britânica. O último vôo para o Brasil decolou no dia 1º de outubro de 1964, retornando à capital britânica no dia seguinte.

A sucessora da BOAC nas rotas para o Brasil foi a British United Airways - BUA. Dirigida pelo energético Freddie Laker, a empresa não tardaria em realizar seu primeiro vôo regular para a América do Sul. Em 12 de outubro de 1964, decolou o primeiro VC-10 (127 assentos) da BUA em direção ao Brasil, Argentina e Chile, ainda em vôo de familiarização com a nova rota. No final daquele mês, um segundo vôo foi feito.

Finalmente, em outubro de 1964 a BUA começou a operar regularmente para o Brasil, a princípio com dois serviços semanais.

No lugar dos Comet da BOAC, a BUA utilizava os Vickers VC-10, com capacidade para 129 passageiros em duas classes.


Acomodações de primeira classe num Comet 4 da BOAC, primeira aeronave a jato a cruzar o Atlântico Sul regularmente.

As qualidades do VC-10 logo se mostraram, atraindo a preferência do público pelo conforto, silêncio a bordo e velocidade incomparáveis.


O Argonaut nada mais era do que um DC-4 fabricado sob licença da Douglas pela Canadair. Os motores eram Rolls Royce Merlin.

De fato, entre os concorrentes na primeira geração de quadrimotores a jato (Douglas DC-8, Boeing 707 e Convair 990), o VC-10 era, sem sombra de dívida, o mais confortável. Seus quatro motores Conway, embora muito ruidosos para quem estivesse no solo, eram bastante silenciosos para os passageiros, em função de sua disposição na cauda. Com uma ótima aeronave, a BUA começou a obter ótimos resultados. Em razão disso, em 1965, a empresa tentou adicionar um terceiro vôo semanal entre Inglaterra e Brasil. O governo brasileiro, contudo, negou o pedido. A Varig, companhia aérea brasileira designada para representar o Brasil, naquele momento não tinha aeronaves disponíveis para operar reciprocamente uma terceira freqüência semanal para o Reino Unido.



Interior de um Argonaut mostra a disposição 2+2 das poltronas: padrão superior de conforto.

A BUA então passou a voar esta terceira freqüência diretamente para Buenos Aires, com escala em Freetown, Sierra Leone, sem poder sobrevoar o território brasileiro.


Esta foto histórica mostra a chegada do primeiro vôo regular Inglaterra/Brasil a jato, feito pelo Comet 4 G-APDO.


Os vôos da BUA também inovaram em termos de trajeto. Depois de deixar a Inglaterra, faziam escalas alternadamente em Lisboa ou Madri, de onde seguiam para Las Palmas, antes de chegar ao Rio de Janeiro.

Outra mudança trazida pelas operações da BUA foi o aeroporto usado nas operações em Londres: pela primeira vez, aeronaves britânicas vindas do Brasil pousavam em Gatwick, aeroporto ao sul da capital britânica. Gatwick e Viracopos tinham em comum, além dos serviços da BUA, um grande inconveniente: ficavam distantes das cidades que serviam.


Folheto promocional do Comet 4, primeira aeronave a jato a ligar o Brasil e o Reino Unido.

Em ambas as pontas, a BUA adotou táticas criativas para solucionar este problema. Na Inglaterra, colocava à disposição dos passageiros transporte gratuito para o Aeroporto de Heathrow ou para a região central de Londres.

Detalhe: para os passageiros de primeira classe, o trajeto Gatwick/Heathrow era feito em enormes helicópteros Sikorsky S-61.

O serviço Airlink unia Gatwick a Heathrow com aeronaves S-61.

No Brasil, a BUA arrendava os Dart Herald da Sadia para transportar gratuitamente os passageiros entre Congonhas e Viracopos.


O Dart Herald da Sadia transportava passageiros da BUA entre Congonhas e Viracopos.


BUA e Caledonian: voando juntas


Voando sobre o Reino Unido, a visão majestosa da elegância do Vickers VC-10.
Não tardaria muito para, por mais uma vez, o governo britânico mudar de idéia em relação à distribuição geopolítica das companhias aéreas designadas para rotas internacionais.


Passageiros chegando de uma viagem à América do Sul desembarcam do VC-10 G-ASIX.


No final dos anos 1960, uma idéia começou a tomar forma nos gabinetes londrinos: o estabelecimento de um regime de duopólio, com a racionalização de serviços e criação de apenas duas empresas aéreas de bandeira. Downing Street achou por bem fundir quatro das maiores companhias aéreas britânicas e criar duas empresas de peso: de um lado, a British European Airways e a BOAC juntariam forças, fusão só concluída em 1974, dando origem à British Airways. No outro canto do ringue, ficariam a Caledonian Airways e a BUA. Juntas, essas duas empresas privadas operaram com a designação Caledonian/BUA por algum tempo, até que a marca mais tradicional ficou: a empresa foi rebatizada British Caledonian em 1970.


O VC-10 e o BAC 1-11, dois produtos britânicos, dividem as atenções no salão de Farnborough.

Na cauda das aeronaves, agora brilhava a belíssima imagem do leão rampante, simbolizando o orgulho patriótico da Escócia, país de origem do dono da empresa, Sir Adam Thomson. A Escócia, originalmente, era chamada pelos romanos de Caledônia, donde saiu o nome da companhia aérea. Veio daí também a tradição de batizar as aeronaves com nomes de regiões, rios, lagos e filhos famosos das Highlands. As cores principais, curiosamente, permaneceram as mesmas para as três empresas que voaram entre o Reino Unido e o Brasil: azul e amarelo, em diferentes matizes, foram utilizados pela BOAC, depois pela BUA e finalmente pela British Caledonian, ou BCal para os íntimos.

As aeronaves usadas na rota seguiram sendo as mesmas por alguns anos, mudando apenas a pintura e os uniformes. A BCal usava em seus uniformes simpáticos tartans, os xadrezes tradicionalíssimos dos clans escoceses. A Caledonian, ao contrário da BUA, havia optado pelo Boeing 707 para sua frota de longo curso. Em 1973, com a crise do petróleo, os quatro motores Conway do VC-10 passaram a representar um fardo que nenhum operador conseguia carregar.


O Boeing 707 mostra em sua fuselagem a designação adotada logo após a fusão da BUA com a Caledonian.

Com consumo de combustível muito maior que o Boeing 707, não tardou muito para a companhia decidir pela aposentadoria de seus VC-10. O Boeing 707 tornou-se o único modelo em operação nos vôos para o Brasil a partir de 1973. Os 707 da BCal eram configurados com 147 assentos, sendo 24 de primeira classe. Os serviços intercontinentais com Boeing 707 mostraram-se muito mais lucrativos do que aqueles operados com os VC-10. A BCal mudou também os trajetos entre o Brasil e a Inglaterra.


Boeing 707 - Cargo da British Caledonian.

Os vôos faziam escalas em Lisboa ou Madri, alternadamente, e a partir de agosto de 1971 passaram a pousar em Casablanca, Marrocos, ao invés de Las Palmas.

Mas logo o Boeing 707 da BCal cederia seu posto para a grande estrela da frota: o McDonnell Douglas DC-10. Quando a Varig colocou os seus primeiros DC-10-30 em serviço ativo, a partir de 1974, a BCal viu-se em clara desvantagem competitiva ante a empresa brasileira. Essa situação permaneceu até 1977, quando a companhia começou a escalar seus DC-10-30 nas rotas para o Brasil. Inicialmente, os DC-10 da companhia estavam configurados com 30 assentos na primeira classe e 235 na econômica. Depois, com o advento da classe executiva, no final dos anos 1970, a configuração passou para 18 lugares na primeira, 35 na executiva e 178 na econômica.


Cena típica dos anos 1970 em Viracopos: partida no começo da tarde de um 707 da BCal rumo ao Reino Unido.

As rotas para a América do Sul foram operadas até 1980 com uma combinação de Boeing 707 e DC-10. Até esse ano, os vôos que partiam de Londres às segundas-feiras eram diurnos no sentido sul e cumpridos com equipamento 707: o vôo BR 667 saía de Gatwick às 9h45, chegava a Recife às 15h10 e ao Galeão às 18h45. Às terças, o vôo BR665 partia de Gatwick às 21h30, pousava no Aeroporto de Guararapes às 2h55, no Galeão às 6h30 e em Viracopos às 8h35. De lá, o DC-10 prosseguia sem escalas para Santiago do Chile, onde pousava ao meio-dia.
Flying Tartans: no DNA da Caledonian, o orgulho de suas origens escocesas.

O terceiro vôo semanal era feito todas as quintas-feiras. O BR661 partia de Gatwick às 19h20, pousava em Madri à 0h30 das sextas-feiras e no Galeão às 6h10. Prosseguia para Viracopos, onde pousava às 8h15.

De lá, partia uma hora depois com destino a Buenos Aires, onde pousava às 12h00. Os passageiros do BR661 com destino a São Paulo podiam optar por desembarcar no Rio e fazer conexão no vôo Transbrasil QD311, operado por Boeing 727-100, que decolava do Galeão às 8h15, chegando a Congonhas às 9h00 das sextas-feiras.

A quarta freqüência semanal (BR663) decolava de Gatwick às 19h20 aos sábados, pousava em Lisboa às 23h50 e no Galeão às 6h10 do domingo. Prosseguia para Viracopos, onde pousava às 8h15. De lá, partia uma hora depois com destino a Buenos Aires, onde pousava às 11h50. Finalmente, cumpria a última perna para Santiago do Chile, onde aterrissava às 13h45 do domingo.

Os vôos de regresso para Londres eram os seguintes: às segundas-feiras, o BR668 (Boeing 707) partia do Galeão às 22h15 e seguia sem escalas para Gatwick, onde pousava às 13h25 nas terças-feiras. O vôo BR666 partia às quartas-feiras de Viracopos às 19h40, do Galeão às 21h30, de Recife à 1h05, chegando a Lisboa às 12h20 das quintas-feiras e a Gatwick às 15h35.

Boeing 707 no Aeroporto de Gatwick.

Nas sextas-feiras, o vôo era o BR662: saídas de Viracopos às 21h20, do Galeão às 23h15, chegando a Madri às 13h45 dos sábados e a Gatwick às 15h35. Finalmente, aos domingos operava o BR664: partia do Galeão às 23h15 e de lá voava sem escalas até Gatwick, onde pousava às 14h05 das segundas-feiras.

Essa foi uma grande época em termos de serviço de bordo. A BCal esmerava-se e criou o padrão de atendimento Serviço de Bordo Leão Dourado. A grande estrela nas refeições era a culinária britânica. O que, diga-se de passagem, não emocionava muito os passageiros que não fossem súditos de Sua Majestade.

Preparando refeições nas cozinhas próximas a Gatwick.

Os detratores da culinária britânica costumam dizer que o menor livro do mundo é intitulado “Delícias da Cozinha Inglesa”. Seja como for, a culinária nos jatos da British Caledonian recebia muitas críticas. Afinal, convenhamos que Kidney Pie e costeletas de cordeiro com menta não são exatamente uma unanimidade mundial. Prevaleceu o bom senso e, em meados dos anos 1970, pratos da culinária francesa passaram a ser opções nos cardápios, que continuaram a ter a maioria de sua inspiração na culinária britânica. Gosto não se discute, mas, de toda forma, não há dúvida de que o serviço de refeições da BCal tinha muita classe. Sem exageros, pode-se dizer que é um sonho, se comparado aos padrões mais espartanos de hoje. Os vinhos, por exemplo, eram absolutamente soberbos. Um cardápio de um vôo em 1972 apresentava como tintos o bordô Chateau Leoville Puyferre 1962 e o borgonha Gevrey Chambertin 1966. O branco era “apenas” um Puligny Montrachet 1966. Para se ter uma idéia, se nos dias de hoje tomarmos vinhos comparáveis a esses como base e somarmos os preços de uma garrafa de cada, o valor total obtido será quase o dobro de uma passagem de classe econômica, ida e volta, entre Brasil e Inglaterra.

A BCal tinha múltiplas opções de pratos quentes na primeira classe. Uma refeição completa levava horas.

Desnecessário dizer que a seleção de uísques e pure malts oferecida a bordo era impecável. A classe não estava apenas nos copos de cristal, mas também nos pratos de porcelana inglesa. Havia ao menos três opções de entrada e quatro de pratos principais. As refeições começavam claro, pelo caviar, um item de riguer nessa época.



Cardápios da First Class no começo dos anos 1970: época de ouro do catering na aviação mundial.

Os pratos não vinham prontos. Ao contrário, eram montados na frente dos passageiros.


O surgimento da classe executiva mudou a configuração interna dos aviões.

Para fechar a refeição, a empresa oferecia uma lista de licores extensa e até mesmo cigarros e charutos – por conta da casa! Naquela época, não havia entretenimento individual, salvo meia dúzia de canais de música “stereo” que podiam ser escutados em desconfortáveis fones de ouvido de borracha. Na classe econômica, o privilégio era pago. O ponto alto da programação de entretenimento, em ambas as classes, era a projeção de filmes de longa metragem, dois por vôo, exibidos em telas instaladas nas divisórias das cabines. Uma profusão de revistas e jornais eram, de fato, as maiores opções de entretenimento a bordo. Os assentos eram enormes e muito confortáveis para a época, embora não se convertessem em camas quando reclinados. Ao final de cada vôo, o purser (comissário-chefe) trazia como lembrança uma taça de cristal escocês Stuart, personalizada. Se voar naquela época já não era para muitos, de primeira classe então era mesmo para muito poucos.


Poltrona da primeira classe do DC-10 da British Caledonian.

Os anos 1980 chegaram. A era do DC-10 estava no auge: os três vôos semanais eram operados exclusivamente com o equipamento.


Minutos antes de mais uma travessia do Atlântico Sul: o DC-10 aguarda o embarque de passageiros em Viracopos.

Houve mudanças nas rotas. Salvador foi incluída no itinerário e operada paralelamente a Recife, mas a escala na Bahia não durou muito. A Veneza Brasileira voltou a fazer parte exclusivamente das rotas em 1º de janeiro de 1982 e ficou na malha da companhia inglesa até o fim de suas operações em nosso país.


Chegada do o BR663 numa linda manhã de domingo em julho de 1984.

Os vôos do Brasil para a Inglaterra partiam sempre às quartas (BR666), sextas (BR662) e domingos (BR664). Decolavam de Viracopos às 18h35, do Galeão às 21h35 e na madrugada do dia seguinte, à 1h05, deixavam para trás Guararapes, pousando em Gatwick às 12h45. Os vôos dos domingos eram ligeiramente diferentes, pois não passavam pelo Recife. Após decolar do Galeão, voavam non-stop para Madri, onde chegavam às 12h10 da segunda-feira. Após uma breve escala, chegavam a Londres às 14h10.



Diferenciação e agilidade no check-in eram alguns dos atributos da Fisrt Class da BCal.

No rumo sul, os vôos partiam de Gatwick todas as terças, quintas e sábados às 20h00. Os vôos às terças (BR663) e sábados (BR665) pousavam em Recife às 2h05, no Galeão às 5h40 e em Viracopos às 7h45. De lá prosseguiam para o cone sul. Os vôos das quintas-feiras (BR661) faziam escala em Madri, pousando na capital espanhola às 23h00 e decolando às 23h59. De lá, prosseguiam sem escalas para o Galeão, onde pousavam às 6h00 da manhã das sextas-feiras. Da Cidade Maravilhosa seguiam para Viracopos, onde aterrissavam às 8h05.

Em 1982, com a eclosão da Guerra das Malvinas (ou Falklands), os serviços para Buenos Aires e Santiago foram bruscamente interrompidos. Os DC-10 da BCal chegavam de manhã cedinho a Viracopos e não mais prosseguiam até as capitais da Argentina e do Chile.

Só voltavam a ver serviço ativo horas depois, quando decolavam para o Galeão e Recife, antes de chegar a Gatwick. Essa situação política desfavorável diminuiu a lucratividade da rota. A BCal então começou a pressionar o governo britânico para uma redistribuição de serviços intercontinentais, reclamando maior presença nas rotas para os países do Golfo Pérsico e Ásia, regiões menos instáveis política e economicamente do que a África e América do Sul, até então seus mercados de longo curso mais relevantes. Em 1984, o governo decidiu-se a favor da British Caledonian: a empresa ganhou as rotas para a Arábia Saudita. Em troca, teve de ceder os serviços da América Latina para a British Airways.


29 de março de 1985. DC10-30: Decola o último voo de Viracopos da British Caledonian. Para nunca mais voltar!

Essa mudança somente seria efetivada em 29 de março de 1985, quando partiu pela última vez de solo brasileiro uma aeronave com o leão dourado na cauda. O melhor resumo dessa saga talvez seja o próprio título do anúncio de despedida publicado pela BCal na época do último vôo: “Saudade. Nós aprendemos essa palavra aqui”. Indeed, querida e inesquecível BCal. Saudade e so long, dear Golden Lion!

Abaixo, publico páginas de um folder do site http://www.british-caledonian.com/, que é um site em homenagem a esta grande empresa aérea que vale a pena conhecer a fundo.








Bibliografia:

Revista Flap Internacional. São Paulo: Editora Spagat, 2007.